As Histórias Completas do Padre Brown - G. K. Chesterton (Parte I)

 Esta é a primeira parte de três, respeitantes à série de livros Padre Brown.

Comprei esta coleção de cinco livros na Feira do Livro do Porto de 2023 por dois motivos: sou fã da série Father Brown da BBC e nunca tinha visto a coleção à venda. Antes de comprar, já estava ciente das diferenças entre a série e os livros, nomeadamente as diferenças respeitantes à personagem titular; mesmo assim, concluí que seria uma excelente ideia adquirir esta coleção, tanto mais não seja para enriquecer a minha biblioteca pessoal.

 

Coleção Histórias Completas do Padre Brown da Círculo de Leitores

 

Diria que Padre Brown, quando comparado com Sherlock Holmes ou Poirot, é apenas um ser pequeno ao lado de dois gigantes; no entanto, apesar dessa pequenez, vale a pena ser lido. A simplicidade dos contos de Chesterton consegue abarcar, na generalidade, uma narrativa cativante, fluída e conclusiva, causando ao leitor intriga, surpresa e satisfação ao longo do conto. Outro motivo para ler as histórias do padre Brown é, simplesmente, a curiosidade. Afinal de contas, que histórias são essas? Como é que a personagem principal resolve os mistérios? Estas perguntas são suficientes para estimular a curiosidade de um leitor. Por fim, um último motivo pelo qual se deve ler estes contos é a ampliação da experiência literária; serão mais cinco livros, no máximo, a adicionar à lista pessoal de livros lidos, mais cinco livros dos quais teremos alguma opinião formada. Da minha parte, nunca tinha lido um livro de Chesterton, e após sete anos ou mais de ter lido a coleção de Sherlock Holmes entro novamente no mundo dos policiais britânicos.

G. K. Chesterton escreveu cinco livros com o padre Brown como personagem principal, um sacerdote católico britânico que resolve mistérios, desde homicídios a roubos. De todas as profissões existentes no mundo, Chesterton escolheu um padre, e essa escolha foi a que tornou o padre Brown uma personagem icónica; se Brown não fosse padre, provavelmente não passaria de um “aspirante a Holmes”. Chesterton, porém, escolheu um padre como personagem principal de contos detectivescos principalmente para combater o equívoco que os padres são ingénuos ou demasiado inocentes para este mundo. Além disso, G. K. Chesterton baseou a sua personagem no padre John O’Connor, um padre influente na vida do escritor britânico. Acrescenta-se, ainda, logo no primeiro conto (A Cruz Azul), uma razão interessante para um padre dar um bom detetive — o conhecimento, através das confissões dos criminosos, dos mais variados métodos para se cometer os mais diversos crimes.

 

Gilbert Keith Chesterton

 

Tal como Poirot com o seu bigode, o padre Brown tem, como elementos característicos, a sua sotaina, o chapéu preto e o guarda-chuva em mau estado. No entanto, ao contrário de muitos outros detetives na literatura, a sua figura acaba por passar despercebida num grupo de pessoas; afinal de contas, é só um humilde sacerdote de baixa estatura. E essa insignificância, em conjunto com a sua profissão, dá um ponto a favor ao improvisado detetive: não só o permite imiscuir-se no centro da ação, observando o local onde ocorreu a trama ou escutando os intervenientes do mistério a dialogar entre si, como também permite obter depoimentos desses mesmos intervenientes.

Em suma, estes dois motivos — o conhecimento das práticas criminosas através das confissões e uma atitude humilde e recatada — são os suficientes para me fazer dizer que um padre daria, de facto, um excelente detetive! A estes dois junta-se igualmente a capacidade que Brown tem em colocar-se na mente do criminoso, imaginando-se ele mesmo a cometer o crime.

No entanto, o padre Brown falha num único aspeto: o padre Brown falha por não ter falhas. É o sacerdote que acaba por resolver todos os mistérios, mesmo aqueles em que a solução parece óbvia a alguém que os analisasse devidamente. Além disso, Brown é, simplesmente, uma personagem perfeita. G. K. Chesterton tinha em estima o padre John O’Connor, e o escritor acabaria por ser convertido ao catolicismo através desse mesmo padre; no entanto, os primeiros dois livros da série Padre Brown surgiram antes dessa conversão, o que me leva a perguntar os motivos de Chesterton por trás da criação de uma personagem católica sem defeitos. Talvez a perfeição de Brown tenha sido causada, inicialmente, pela influência do padre O’Connor em Chesterton, e, ultimamente, pela visão católica do próprio autor.

Para além do padre Brown, uma outra personagem recorrente ao longo dos contos é Hercule Flambeau, introduzida ao leitor logo na primeira história como o mais famoso ladrão à escala mundial. No entanto, ainda no primeiro livro, Flambeau torna-se detetive privado — uma transição que, na minha opinião, foi comicamente brusca — e acaba por acompanhar o padre Brown em várias das suas aventuras detectivescas. Os maneirismos desenvoltos de Flambeau contrastam com os maneirismos modestos do sacerdote, e os dois acabam por formar, na minha opinião, uma dupla interessante e peculiar.

Tal como havia dito, os contos são simples, e um livro da coleção, dependendo do leitor, pode-se dar por terminando em um ou dois dias. Os mistérios, na melhor das hipóteses, são intrigantes, com narrativa cativante o suficiente para prender o leitor até à solução do problema, muitas vezes inesperada. Um outro aspeto que considero positivo é que, em vários contos, o crime apenas surge a meio destes, o que permite ao narrador apresentar ao leitor o contexto onde se insere o crime, criando uma pequena e interessante história de fundo antes de se atingir o cerne do conto. Desta maneira, o mistério, ou o crime, não surge como um acontecimento isolado, mas sim como parte integral da narrativa.

Porém, na pior das hipóteses, os contos não passam de uma narrativa lenta, apesar do seu tamanho reduzido, pouco cativante, com pouca ação, e com personagens sem senso comum que apenas servem para elevar forçadamente a genialidade do padre Brown, finais previsíveis, estereótipos raciais vigentes na época do autor e uma exaltação do catolicismo que reflete as opiniões do próprio Chesterton. Além disso, tratando-se de contos, há pouco espaço para a exploração dos temas abordados; por vezes, tive a impressão que Chesterton estava a prestes a alongar-se em determinados assuntos que me despertam a curiosidade, mas as suas reflexões não passavam de curtas observações do padre Brown. Em determinados contos, o padre Brown resolve o mistério através de observações que não foram explícitas ao leitor, como a posição de determinados objetos, diálogos ou certas ações; eu considero isso uma “batota”, uma injustiça para com os leitores; provavelmente essa ocultação de factos trata-se simplesmente de uma maneira de nos mostrar a inteligência de Brown.

Um dos exemplos mais óbvios da elevação do intelecto do padre Brown acima do das outras personagens é Flambeau; esta personagem foi-nos introduzida como um génio criminoso, um famoso ladrão que conseguiu enganar por várias vezes os seus perseguidores; seria de esperar, então, que, enquanto detetive, Flambeau usasse os conhecimentos obtidos nas suas atividades criminosas na resolução dos mistérios, mas tal não acontece: continua a ser o modesto sacerdote católico a encontrar a solução, enquanto Flambeau se junta às centenas de figurantes incapazes de resolver os crimes. Por vezes, a solução para um mistério é tão óbvia que o facto de mais nenhuma outra personagem para além de Brown ser capaz de lá chegar torna-se irritante.

Apesar destes pontos negativos, os mistérios do padre Brown valem a pena ser lido pelos motivos que mencionei previamente.

 

A coleção Histórias Completas do Padre Brown, da editora Círculo de Leitores, compreende os cinco volumes que G. K. Chesterton publicou: A Inocência do Padre Brown, A Perspicácia do Padre Brown, A Incredulidade do Padre Brown, O Segredo do Padre Brown e O Escândalo do Padre Brown. Infelizmente, as histórias separadas The Donnington Affair e The Mask of Midas não foram incluídas nesta coleção.

Farei uma crítica sumária dos cinco livros da coleção, dividida em várias publicações. Para que este post não se torne demasiado longo, apenas incluirei uma breve crítica ao primeiro livro.

 

A Inocência do Padre Brown (1911)

26/09/2023 a 30/09/2023

 
Capa do primeiro livro da coleção Padre Brown

 

O livro começa de uma maneira peculiar com o conto A Cruz Azul: é nos contado a partir do ponto de vista de Valentin, chefe da Polícia de Paris, que tinha o objetivo de localizar o francês Hercule Flambeau, o mais famoso ladrão à escala mundial. Este primeiro conto da série de cinco livros mostra-nos de uma forma interessante a sagacidade do padre Brown, que ajuda a polícia a chegar até Flambeau. A segunda história (O Jardim Secreto), onde aparece pela segunda vez Valentin, é igualmente uma mostra das capacidades do pequeno sacerdote. No entanto, é a partir deste conto que se torna notório que o autor eleva o intelecto de Brown acima do das outras personagens. Os restantes dez contos envolvem mistérios policiais, desde roubos e homicídios a crimes cometidos no passado.

Na maior parte das histórias, a narrativa consegue ser apelativa e fluida, e os mistérios cativantes. Neste primeiro livro, Chesterton mostra-nos o seu talento narrativo, a sua capacidade para criar pequenas histórias simultaneamente conclusivas, mas que deixam o leitor desejar que estas fossem um pouco maiores. Os cenários onde se passa a trama são ricamente diversos: uma casa hermeticamente fechada onde ninguém pode entrar e sair sem ser visto, um cenário familiar, um hotel requintado, o edifício onde Flambeau habita entre um escritório de datilografia e um local de culto. A maioria das personagens envolventes nos mistérios está bem construída, com histórias tão interessantes quanto o conto em si. Chesterton consegue criar personagens com personalidades e motivações diferentes, personagens que nos parecem reais; mas o autor consegue igualmente infundir-lhes uma certa teatralidade, seja através de exclamações repentinas, sentimentos exacerbados, ou gestos bruscos, transmitindo ao leitor um pouco de comicidade no meio de uma história que tenta ser séria.

Neste primeiro livro, foram poucos os mistérios que me conseguiram aborrecer, e, como o meu nível de satisfação pouco variou ao longo do livro, ou seja, não havia nenhuma história notavelmente má, diria que não há necessidade de rever todos os contos. Apenas digo que se tivesse de escolher o conto que menos gostei, esse seria A Forma Errada, e, quanto ao favorito admito que não consigo escolher um; gostei de vários deles devido ao estilo de escrita de Chesterton, ao mistério em si e à forma como este foi resolvido.

Apesar de alguns contos terem finais apressados, da visão religiosa de Chesterton evidente na narração e de algumas descrições de personagens feitas de maneira excessivamente pejorativa (algumas delas resultadas das opiniões do autor), a maioria dos contos com a sua narrativa, mistério e resolução  conseguiu ser cativante para mim; assim, dou a este livro uma nota positiva.   

Classificação final: 7.5/10

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