As Aventuras do Capitão Hatteras - Jules Verne

 Jules Verne, ou Júlio Verne, foi um escritor prolífico que deixou um impressionante património literário. O primeiro livro que li deste autor foi A volta ao Mundo em 80 Dias, ainda no secundário; seguiu-se o Vinte Mil Léguas Submarinas, e, depois disso li os livros Da Terra à Lua, À Volta da Lua, e A Ilha Misteriosa. Em 2023, foi a vez de As Aventuras do Capitão Hatteras ingressar na minha lista de livros lidos. Este último livro, bem como A Ilha Misteriosa, tratou-se de uma aquisição da minha ida à Feira do Livro do Porto.

 







As Aventuras do Capitão Hatteras, Jules Verne, edição Livraria Bertrand
 

 Alguns livros de Júlio Verne encontram-se com relativa facilidade nas livrarias convencionais; tal é o caso de A Volta ao Mundo em 80 Dias, Vinte Mil Léguas Submarinas, Cinco Semanas em Balão, e Miguel Strogoff. — Um pequeno à parte: parece ter havido, em anos recentes, um aumento de livros clássicos nas livrarias convencionais, todos publicados por uma só editora, cujo nome não direi; em junho deste ano, a editora foi acusada de usar Inteligência Artificial ou tradução automática para traduzir várias obras, o que explicaria a rápida publicação de literatura francesa, inglesa e russa, sendo que vários livros de Júlio Verne foram publicados por esta editora; fica ao critério do leitor decidir se pretende comprar e ler livros dessa editora. — Porém, nos alfarrabistas, livrarias antigas ou nas feiras de livros é possível encontrar mais livros desse autor, publicados principalmente pela editora Livraria Bertrand.

Mas porquê ler Júlio Verne? Bem, porque não? O principal motivo para se ler qualquer livro e qualquer escritor é, simplesmente, a curiosidade: Quem é esse escritor? O que escreveu ele? Que histórias são essas? Outro motivo é a expansão da nossa experiência literária, será mais um escritor e a sua obra a ingressar na lista de livros lidos. Por último, mas não menos importante, considero Júlio Verne um escritor de fácil compreensão, cuja maioria dos seus livros pode ser lida por qualquer um; o estilo de escrita é simples, com poucos momentos aborrecidos ou parados, sem descrições exageradas, e as personagens são interessantes. Em certos livros, porém, Verne aborda assuntos muito específicos, como é o caso de Vinte Mil Léguas Submarinas; por isso mesmo recomendaria começar a exploração da obra deste autor com A Volta ao Mundo em 80 Dias: um livro do género de aventura, de pequena dimensão e fácil de se ler. Ademais, recomendo este livro a pessoas que se queiram introduzir no mundo dos clássicos e ainda a pessoas que não gostam de ler, incluindo jovens em idade escolar, visto que o livro pertence ao Plano Nacional de Leitura.

Júlio Verne foi um escritor francês, mais conhecido pelas suas obras dos géneros de aventura e exploração. Na coleção Viagens Extraordinárias, a sua obra principal, é evidente o fascínio do próprio escritor pelas áreas científicas, sendo notável uma sensação de maravilhamento pela ciência e exploração. Verne gostava de se instruir e se manter a par das últimas descobertas científicas da sua época, especialmente da área da geografia, o seu tema favorito de estudo. Mas o escritor também não põe de lado a ciência, um dos seus outros prazeres. Júlio Verne pesquisava extensivamente e tomava notas do que lia em livros, jornais e revistas científicas. Essa pesquisa intensiva por vezes resultava em que os livros deste autor incluíssem fenómenos científicos que apenas ocorreriam anos depois da sua publicação; Verne, porém, afirmava que eram apenas coincidências, resultado de “tentar tornar as coisas tão verdadeiras e simples quanto possível”. No entanto, há sempre algumas coincidências admiráveis, e a prevalência da ciência na sua obra fez com que vários cunhassem Júlio Verne como um escritor de ficção-científica. 

 

Fotografia de Júlio Verne (1884), por Étienne Carjat

 

Se é discutível se Verne é ou não um escritor deste género literário, o que não é discutível é a sua imensa influência e marca que deixou para a posterioridade. Escritores como Arthur C. Clarke e Ray Bradbury, ambos do género da ficção-científica, afirmaram que Verne foi uma das suas influências. A obra de Júlio Verne, em conjunto com a de H. G. Wells, foi uma das principais influências para a criação de steampunk, não só um género literário, mas também uma “estética” com aderentes contemporâneos. Sendo que a ciência e a exploração são comuns na obra verniana, não é de estranhar que cientistas e exploradores citem Verne como sua inspiração ou autor favorito; entre estes encontram-se Santos-Dumont, Richard E. Byrd, Edwin Hubble, Guglielmo Marconi, Yuri Gagarin. Neil Armstrong, no regresso de Apollo 11 à Terra, referenciou Verne, sublinhando o paralelismo entre a viagem descrita pelo escritor numa das suas obras e a viagem que acabara de efetuar. 

As aventuras cativantes, repletas de ciência e exploração, que Verne escreve terão sempre espaço no meio dos meus livros. Apenas não os leio de uma vez, pois considero fatigante ler demasiados livros seguidos de um mesmo autor. Mas, enfim, sem dúvida que a minha coleção de Júlio Verne vai crescendo com o tempo, pois é impossível esquecer ou pôr de parte este escritor.

 

Aventuras do Capitão Hatteras (1866)

21/10/2023 a 06/11/2023

Este livro foi publicado originalmente em 1864 e depois em 1866, com ilustrações, fazendo parte da coleção Viagens Extraordinárias.  O livro é dividido em dois volumes: Ingleses no Polo Norte, e O Deserto de Gelo.

O primeiro volume começa de uma forma curiosa; em abril de 1860, um navio, o Forward, está pronto a encetar viagem, mas nenhum habitante de Liverpool sabe o seu destino, e muito menos o seu capitão! Os entendidos do assunto, porém, concluem que o navio terá como destino uma das regiões polares da terra. Richard Shandon, um experiente navegador, havia recebido uma carta anónima que o encarregava, com informações pormenorizadas, da construção de um navio e da escolha da sua tripulação. Aparece também o jovial doutor Clawbonny, um homem com uma mente enciclopédica, que põe em primeiro lugar as necessidades dos outros, e que é incapaz de fazer inimigos. James Wall e Johnson são dois outros homens com posição elevada na hierarquia do navio. E, por fim, há ainda o “cão capitão”, um cão cujo dono é o misterioso capitão.

No momento da partida, a tripulação, composta por 18 homens, ainda desconhece o seu capitão, e o rumo a tomar. Porém, à saída de Liverpool, quando várias pessoas se encontram a bordo para se despedir dos tripulantes, Shandon e Clawbonny reparam que o cão tem uma carta entre os dentes, uma carta escrita e assinada pelo capitão a indicar o rumo do navio. Esta circunstância levou a várias teorias entre a tripulação: o capitão seria um dos visitantes do navio; teria ele embarcado sem ninguém se aperceber e encerrado no seu compartimento; ou um dos membros da tripulação seria, na verdade, o capitão? Esta ocasião, e outras posteriores, levaram a que os membros mais supersticiosos da tripulação julgassem o cão como algum ser fantástico, que a qualquer momento se transformaria num humano e comandaria o navio.

Quando a tripulação estava prestes a rebelar-se contra Shandon, o capitão do Forward, infiltrado como tripulante, revela-se, por fim. É-nos introduzido John Hatteras, um homem intrépido, que não pretende recuar perante qualquer obstáculo, e cujo objetivo é alcançar o Polo Norte. Hatteras, um autêntico patriota britânico, deseja que a conquista do polo setentrional seja de autoria inglesa. O intrépido capitão já havia tentado essa viagem duas vezes, ambas resultando em tragédia; não é de admirar, pois, que Hatteras ganhasse uma reputação agoirenta, tendo decidido ocultar a sua identidade antes de iniciar, pela terceira vez, desta vez com o navio Forward, a viagem que tanto anseia em completá-la.

No fim do primeiro volume, aparece também Altamont, um navegador americano que servirá de ajuda a Hatteras e companheiros. E, no segundo volume, as nossas personagens aguardam os desgelos para tentarem completar a sua viagem.

Ao longo dos dois volumes, as personagens passam por variadíssimos perigos: riscos de motim, tempestades, icebergues, encalhes, hipotermia, escorbuto, e até ataques de ursos. E, é claro, há sempre as engenhosas soluções empregadas para ultrapassar esses perigos, por vezes baseadas em acontecimentos reais; uma das minhas favoritas é o uso de balas feitas a partir do mercúrio congelado de um termómetro.

As Aventuras do Capitão Hatteras é um livro tipicamente verniano: há uma premissa — será possível alcançar o Polo Norte? — ou objetivo final, há os meios para o alcançar, e há personagens capazes de o alcançar. É um livro de aventura e exploração, os riscos são elevados para as personagens — ou sucedem na sua missão, ou morrem a tentá-la, ou regressam derrotados à pátria —, o perigo espreita em todo o lado. As personagens são também tipicamente vernianas. Temos o homem intrépido, corajoso, que não pretende recuar perante qualquer adversidade representado em Hatteras, frio, implacável, impassível, mas que não deixa de ser humano. Temos o homem das ciências, o homem erudito que sabe de tudo, representado em Clawbonny, com conhecimentos de ciência, medicina, História, culinária, caça, e outras áreas. É de notar que, tal como muitos outros livros de Verne, há personagens contrastantes: o doutor Clawbonny, com a sua jovialidade, loquacidade e altruísmo, contrasta com Hatteras e a sua frieza, impassibilidade e obsessão, e a rivalidade entre americanos e ingleses, exemplificada em Altamont e Hatteras.

Júlio Verne, tal como nos seus outros livros, mostra nesta obra a sua paixão pela ciência e exploração. Nota-se quando um escritor tem uma paixão ou um interesse profundo por uma determinada área. Verne não precisava de incluir certas passagens alusivas à ciência; afinal de contas, o enredo poderia progredir naturalmente sem um ou outro fenómeno da física, astronomia ou biologia; mas a curiosidade e paixão pela ciência, geografia e exploração sempre estiveram presentes em Júlio Verne e na sua obra. Verne introduz ao leitor factos científicos conhecidos e teorias aceites até à época da escrita do livro, e incorpora-os na sua narrativa; e, a par da viagem das nossas personagens, o autor ainda inclui pormenores das viagens dos navegadores árticos. Esses elementos enriquecem ainda mais uma história.

Dificilmente encontro algum aspeto negativo neste livro. Trata-se de um livro que me deixou maravilhado pelas descrições das paisagens boreais e das explorações passadas, mas que me deixou horrorizado pelas descrições dos perigos que as personagens enfrentaram ao longo da sua viagem. Em suma, é um livro de aventura, fácil de se ler, com personagens cativantes e enredo interessante, que me prendeu do início ao fim. Merece, pois, uma nota máxima na minha classificação.

Classificação final: 10/10

 

Observação final: Apesar de gostar de geografia, tive uma certa dificuldade inicial em acompanhar a viagem do Forward, devido à minha falta de conhecimento quanto à geografia do Mar Ártico e do norte do Canadá. Recorri ao mapa desenhado por Riou para me ajudar. (Por curiosidade: note-se a ausência das Ilhas Amund Ringnes e Ellef Ringnes, apenas descobertas em 1900 e 1901, respetivamente).

Mapa da rota do Capitão Hatteras


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