Contos Nocturnos - E. T. A. Hoffmann



 Desde que li Edgar Allan Poe que tenho vontade de conhecer mais a literatura gótica, ou escritores que usam elementos góticos nas suas obras. Foi através da pesquisa que me deparei com o escritor alemão Ernst Hoffmann, e foi com extrema satisfação que encontrei um pequeno livro deste autor, uma compilação de alguns contos dele, na edição de 2023 da Feira do Livro do Porto.

Por vezes, sentimos uma imensa curiosidade com respeito ao desconhecido, tal como uma pessoa se inclina perigosamente sobre um poço apenas para ver quão fundo ele é. E essa é a minha relação atual com a literatura gótica; trata-se de um abismo ou poço fundo, cuja curiosidade inexplicável me leva a querer explorar. Na verdade, pouco sabia sobre a literatura gótica, e a leitura de todos os contos e poemas de Poe permitiu compreender, com um pouco de pesquisa também, algumas caraterísticas principais deste género literário. Agora, porém, com a leitura de Hoffmann, em conjunto com a redação de críticas literárias, ocasionou-se-me uma oportunidade para falar do gótico.

Elementos considerados góticos sempre estiveram presentes na literatura. No entanto, era necessário uma determinada “estética” associada a esses elementos que os consolidasse; era necessário uma estética emocional, que combinasse a intensidade das emoções com o terror e o obscuro. Assim, é apenas no século XVIII que o gótico é consolidado como um género literário. Entram em cena autores como Horace Walpole e Ann Radcliffe que abrem passagem aos escritores do século XIX que se dedicam ao gótico ou usam-no na sua obra. Ao longo desse século encontramos Mary Shelley, E. T. A. Hoffmann, Edgar Allan Poe, Emily Brontë, Oscar Wilde, Robert Louis Stevenson, Henry James, entre muitos outros. A literatura gótica chega ao século XX através de Gaston Leroux, e elementos desse género literário são encontrados em H. P. Lovecraft, Daphne du Maurier ou William Faulkner, e é possível dizer que o gótico ainda pode ser encontrado na literatura contemporânea.

      Ilustração de Harry Clarke em O Caso do Sr. Valdemar, de Edgar Allan Poe
Mas, afinal de contas, o que distingue a literatura gótica como género literário? Há a predominância do sobrenatural, horror, grotesco e da morte. O próprio horror e sobrenatural parecem que estão embrenhados na história, como se não tivessem sido introduzidos pelo autor, mas sim surgidos naturalmente; o horror faz-nos sentir suspense, desconforto e repulsa. Além disso, há a intensidade das emoções: paixões, obsessões, loucura e desespero são as mais comuns na literatura gótica. Temos narrativas que envolvem aparições e outras figuras misteriosas, estados letárgicos ou de sonambulismo, sonhos e pesadelos, misticismo, influências psíquicas, sósias ou locais desolados ou em ruínas. Temos narradores que não são de confiança, histórias dentro de histórias ou a importância de acontecimentos passados no presente.

O gótico como género literário terá sempre um lugar especial no meu íntimo devido a todos esses elementos e à combinação única do horror, do obscuro e da intensidade das emoções. Assim, não hesitei quando vi o pequeno livro de Hoffmann na Feira do Livro.


           Suposto autorretrato de Hoffmann                 
  E. T. A. Hoffmann foi um escritor alemão que se focou no gótico, mas as suas histórias também contêm elementos fantásticos e românticos. Os seus contos podem envolver o sobrenatural, mas não deixam de nos transmitir autenticidade, não só pela forma como estão escritos, mas também pela caracterização dos locais e situações sociais; parece que Hoffmann quer sugerir aos seus leitores que o sobrenatural pode ser encontrado em qualquer lado; o fantástico mistura-se com a realidade. No mundo de Hoffmann podemos encontrar emoções intensas — a paixão, obsessão, a loucura e o desespero — que, por serem excessivas, levam à destruição ou humilhação da personagem que as sente. Podemos encontrar aparições, autómatos, sósias, mundos paralelos, seres imortais, misticismo e vampirismo.

Busto de Hoffmann no Teatro de Bamberg, Alemanha
  Hoffmann traçou o rumo da literatura gótica, influenciou Edgar Allan Poe, Charles Dickens, Franz Kafka. Hoffmann, através de O Quebra-Nozes e o Rei dos Ratos, introduziu na literatura o enredo de uma criança a ser transportada para um mundo fantasioso e mágico, que mais tarde haveria de ser usado em O Feiticeiro de Oz, Alice no País das Maravilhas ou As Crónicas de Nárnia. Schumann, Offenbach e Tchaikovsky basearam-se em Hoffmann para as suas composições, óperas ou peças de bailado. A sua influência até chegou a Alfred Hitchcock, e Sigmund Freud e Carl Jung estudaram a sua obra de um ponto de vista psicanalítico. Ernst Theodor Amadeus Hoffmann trata-se de um gigante, um gigante muitas vezes posto de parte, mas a sua influência é visível nos trabalhos de muitos autores posteriores a ele. Hoffmann é um gigante invisível, quase omnipresente, que merece a nossa atenção. A sua obra é vasta e variada, e uma excelente porta de entrada para o mundo da literatura gótica.

 



Contos Nocturnos (Éditions Ferni/ Amigos do Livro Editores)

05/10/2023 a 12/10/2023

Acho necessário especificar qual a editora do único de livro de Hoffman que possuo até agora por dois motivos. Primeiro, a Amigos do Livro não traduziu diretamente do alemão, mas sim a partir do francês, através da Éditions Famot et Ferni (ou Éditions Ferni), e, segundo, essa editora suíça tomou algumas liberdades na escolha de contos que integrariam a sua edição de Contes Nocturnes e também na escolha dos títulos dos contos.  

Com respeito à tradução, pouco tenho a reclamar. Seria ideal ter uma cópia diretamente traduzida do alemão por um tradutor competente, mas ler esta edição de tradução indireta não me afetou muito, para dizer a verdade; além disso, não sou a pessoa mais indicada para avaliar objetivamente a qualidade de tradução de um livro.

É a escolha dos contos que me deixa mais intrigado. O livro original (Nachtstücke, 1816-1817) conta com oito contos, dos quais apenas dois integram a lista de contos da Éditions Ferni! Os restantes contos dessa edição pertencem originalmente a Contos Fantásticos (Fantasiestücke in Callots Manier) e Os Irmãos Serapião (Die Serapions-Brüder). Tenho uma imensa curiosidade em saber a decisão por trás destas escolhas por parte da editora original; diria que esta se trata de uma questão impossível de se obter uma resposta concreta.

Há ainda a mencionar as alterações feitas a vários títulos dos contos. De Erscheinungern (Manifestações/Aparições), temos Os espiões, Rat Krespel (Conselheiro Krespel) passou a O Violino de Crémone, Spielerglück (A Sorte do Jogador) tornou-se A Banca do Faraó, Doge und Dogaresse (O Doge e a Dogesa) passou a O Casamento do Doge, Der Zusammenhang der Dinge (A Relação/Ligação das Coisas) tornou-se La Chaîne des Destinées (A Cadeia dos Destinos), e, por último, Die Abenteuer der Sylvesternacht (As Aventuras da Noite de Passagem de Ano) passou a O Reflexo Perdido. No contexto de cada conto, compreende-se estes títulos alternativos; no entanto, tratou-se de uma mudança absolutamente desnecessária.

Se nem os contos nem os títulos correspondem àquilo que Hoffmann publicou, como devo proceder agora? Farei de conta que o “Contos Nocturnos” que tenho comigo trata-se, na verdade, de uma compilação de contos de Hoffmann escolhidos ao acaso, e, por questões práticas, referirei aos contos pelos títulos que julgo corretos; a única exceção será, mais uma vez por razões práticas, O Reflexo Perdido.

Os nove contos deste livro podem ser considerados uma boa maneira de me introduzir ao mundo imaginativo, fantástico e romântico de Hoffmann. Os contos são de facílima leitura, especialmente para um leitor habituado a ler livros publicados no século XIX; por vezes, tinha a impressão que estava a ler poesia em forma de prosa, e, nesses casos, o estilo de escrita, ajuntando ao dramatismo dos enredos, obrigava-me a reler certas passagens porque soavam tão bem. As descrições de cenários por vezes são representativas do estado de espírito das personagens. Além disso, não há descrições exageradas, nem momentos demasiado longos sem nada de interessante ocorrer; a história flui, na maior parte destes contos, com extrema naturalidade.

Há determinados elementos que se repetem nestes contos, como emoções intensas, amores trágicos, morte de personagens femininas, o sobrenatural ou misticismo, ou narrativa dentro de uma narrativa.

No primeiro conto (A Casa Deserta), temos uma casa de aspeto decadente no meio de um bairro luxuoso; esse destaque leva a que o narrador fique obcecado com ela, vigiando a casa durante várias horas e inquirindo pessoas sobre ela. O sobrenatural tem algum destaque neste conto inicial, pois o nosso herói julga ver aparições de uma bela mulher não só na casa, mas também em espelhos. Mas o que A Casa Deserta tem de melhor é que o sobrenatural não parece ser apenas um elemento da história; toda a história está escrita de maneira que ela própria parece sobrenatural. Enquanto a lemos, temos a impressão de que algo desconfortável reside nela, e esse desconforto é perfeitamente visível no narrador: “um penoso sentimento de mal-estar me afastou da capital”.

O sobrenatural encontra-se presente em maior grau nos contos O Magnetizador e O Reflexo Perdido, dois dos meus contos favoritos neste livro. No primeiro, é o misticismo que nos deixa absorvidos ao longo da história, envolvendo um praticante de magnetismo animal, ou mesmerismo, que pretende controlar a mente e a alma de uma das personagens:

 

“parece-me que encontro dentro de mim o seu pensamento, que ele ilumina com a sua vontade no meu ser um fogo de luz que resplandece ou se extingue segundo essa vontade me atrai ou me repele; é uma espécie de estado de transubstanciação na qual eu encontro uma felicidade inefável, superior a tudo o que a vida física pode oferecer de desejável.”

                                                                                                                - E. T. A. Hoffmann, O Magnetizador

 

Para além do magnetismo, Hoffmann ainda aborda a metempsicose — a transmigração da alma de um corpo para outro — visto que uma das personagens confunde o magnetizador com uma determinada pessoa da sua juventude igualmente envolvida no mesmerismo.

Em O Reflexo Perdido temos o uso interessante do cliché femme fatale. Toda a literatura e outras áreas artísticas, especialmente o cinema e a televisão, estão repletas de clichés; tudo depende se esses clichés são bem usados ou não. Neste caso, a femme fatale é combinada com o fantástico. O herói desta história apaixona-se perdidamente por Julia num baile de Ano Novo, e acaba por provocar uma cena embaraçosa devido ao seu nervosismo; no entanto, a sua amada oferece-lhe um copo com um licor onde brotavam pequenas manchas azuladas fosforescentes. Quando se vê a sós com Julia, aparece inesperadamente uma “hedionda figura” que reclama a sua mulher; o narrador foge para o meio de uma tempestade de neve num estado de delírio febril.

 

“Os cataventos gritavam nos telhados como mochos assustados e as rajadas do vento da noite que fustigavam no espaço turbilhões de neve pareciam vozes do demónio que troçavam da minha febre e do meu desespero.”

                                                                                                             - E. T. A. Hoffmann, O Reflexo Perdido

 

É-nos introduzido mais duas personagens curiosas, um homem sem sombra e um homem sem reflexo. É o homem sem reflexo que nos interessa para esta história. O narrador acaba por ter de partilhar um quarto com este, e surpreende-se quando o desconhecido profere “Giulietta! Giulietta!” durante o sono; nessa mesma noite, o nosso herói tem um sono agitado, sonhando com Julia a oferecer-lhe o tal copo com o estranho licor, enquanto o desconhecido, metamorfoseado em esquilo, implora-lhe para não beber o líquido. Quando acorda, repara que o homem sem reflexo partira e deixara para trás o que estivera a escrever durante a noite: a história de Erasmus Spicker e a revelação da identidade de Giulietta; a história de como um homem foi levado a perder o seu reflexo em troca do amor.

Temos, então, o típico conto de uma paixão incontrolável, da fraqueza do espírito humano e como este é facilmente dominado. Temos um conto que usa de uma excelente maneira o sobrenatural para transmitir essa mensagem. Este foi o último conto do livro de Hoffmann que possuo, e devo dizer que foi uma maneira muito satisfatória de o terminar.

A obsessão é um tema muito comum nos nove contos que li. Para além de A Casa Deserta, em O Doge e a Dogesa, Marino Falieri encerra a sua esposa por causa do ciúme, em A Sorte do Jogador temos a obsessão do jogo que arruína a vida de três pessoas, tanto pela perda absoluta de dinheiro, como pelo comprometimento da vida conjugal. Em Conselheiro Krespel, a personagem titular mantém uma obsessão por violinos e encerra na sua casa uma jovem senhora, impedindo que esta se expresse através do canto.

Outros temas comuns, tal como já havia mencionado, são os amores trágicos e a morte das personagens femininas. A paixão e as emoções fortes são elementos prevalentes nos contos de Hoffmann, e tanto as personagens masculinas como as femininas não escapam a essas emoções mais intensas. O Coração de Pedra mostrou-se uma agradável e curiosa surpresa para mim, neste contexto. Temos a história de um homem conhecido por ter um coração empedernido (“Sou forçado a reconhecer que o meu pobre coração é incapaz de expansões afetuosas”); no seu jardim, encontra-se um pequeno monumento com um coração em ágata incrustado nele. Reutlinger, o homem de coração frio, é acometido por uma súbita e intensa emoção; um familiar que fora expulso da sua casa no passado regressa e roga-lhe para esquecer o passado entre ambos. Fica acordado que o tal familiar encetará uma viagem de vários meses; no entanto, no seu regresso, descobre que o coração empedernido de Reutlinger se havia quebrado, e que este morrera de comoção. Assim, este conto constitui o único exemplo de entre os nove de uma morte de personagem masculina causada pela intensidade das emoções.

Como apreciação geral, diria que esta compilação de nove contos me deixou uma boa impressão. Não há livros perfeitos, e muito menos autores perfeitos. São raras as vezes que dou nota máxima aos livros que leio; para tal, é necessário que os vários elementos (narrativa, personagens, cenários, temas, reflexões e divagações do autor, e muitos outros aspetos difíceis de conseguir explicar) se misturem dentro de mim numa sinergia quase ou completamente perfeita. Isso não aconteceu no caso de Hoffmann. Ler estes contos foi uma boa experiência para mim, e, na verdade, nem consigo apontar nada de negativo! Mas faltou essa sinergia interna. Concluindo, o estilo de escrita, as histórias, os elementos fantásticos e alguns dos temas abordados são motivos mais que suficientes para dar uma nota positiva a este livro.

Classificação final: 8.5/10

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