As Histórias Completas do Padre Brown - G. K. Chesterton (Parte II)

Esta é a segunda parte de três com respeito à coleção de livros As Histórias Completas do Padre Brown, e inclui duas críticas aos livros dois e três. A primeira parte, que inclui uma introdução e a minha opinião com respeito ao primeiro livro, pode ser lida em: As Histórias Completas do Padre Brown - G. K. Chesterton (Parte I).

Ao contrário do que fiz com o primeiro livro, tendo escrito uma crítica breve, as críticas destes dois livros serão um pouco mais alongadas, pois achei ser necessário. Seja pela impressão negativa geral de um dos livros, pela variação da minha apreciação das histórias, ou pela maneira como certos temas são abordados, decidi que ficaria melhor um texto mais longo, apesar do tamanho pequeno dos livros. 


A Perspicácia do Padre Brown (1914)

01/10/2023 a 04/10/2023

Capa do segundo livro da coleção Padre Brown


Depois da minha boa experiência com o primeiro livro da série, decidi começar de seguida o segundo livro. À semelhança do primeiro, as duas primeiras histórias foram muito apelativas para mim, envolvendo um prestidigitador que conseguiu enganar todos — exceto, tal como seria de esperar, o padre Brown — e uma tentativa de sequestro no interior italiano. No entanto, é a partir do terceiro (O Duelo do Doutor Hirsch) que os contos começam a ficar menos cativantes; neste terceiro conto, a narrativa e o mistério são, em si, interessantes, mas não passa de uma repetição do primeiro conto, mas com cenários e personagens diferentes.

Após o terceiro mistério, segue-se seis contos com pouquíssimas características redentoras! Seis! O quarto conto (O Homem na Passagem) diferencia-se dos restantes por incluir uma cena que se passa no tribunal, onde o padre Brown consegue ilibar o suposto suspeito; a história teria sido boa (pelo menos comparada com o que estava para vir), se eu não tivesse adivinhado de imediato o verdadeiro culpado e a verdadeira arma do crime. O Erro da Máquina e A Peruca Roxa têm a resolução mais absurdamente simples, tão simples que considerei penoso ler estes dois contos; A Cabeça de César é, maioritariamente, um longo monólogo aborrecido, e A Extinção dos Pendragons em nada me surpreendeu.

Para terminar esta série de seis horríveis contos, temos o mais infame de todos, O Deus dos Gongos. Não minto ao dizer que Chesterton tem uma excelente capacidade de usar os mais variados cenários, e a história começa desta maneira: é-nos apresentado um cenário liminar, um daqueles cenários habitualmente repletos de pessoas, mas que se encontra vazio, e por essa mesma razão perturba um transeunte solitário; depois a narrativa passa para um coreto, depois um hotel em mau estado e, por último, uma vila onde decorrerá um combate de boxe. Se a história se tivesse passado apenas no passeio e coreto vazios, mesmo assim não seria o suficiente para ela se redimir aos meus olhos, pois segue-se uma das piores narrativas que li até agora, envolvendo comentários pejorativos por parte de Flambeau, Brown e do narrador da história, e uso de estereótipos raciais. À parte tudo isso (como se fosse possível pôr de parte todos esses aspetos negativos!), a história não tem qualquer substância; nem sequer há um mistério, apesar de haver um homicídio e uma tentativa de homicídio. O culpado do crime é óbvio, pois desde o meio da história que nos apercebemos da existência desses estereótipos; o lutador de boxe é, na verdade, membro de uma sociedade secreta de canibais praticantes de vodu e que fazem sacrifícios humanos. Em suma, este conto é o resultado das opiniões e visões racistas comuns no Reino Unido no início do século XX; provavelmente seria apelativo no passado, mas diria que, atualmente, não passa de uma história inútil.

A história seguinte, A Salada do Coronel Gray, ainda com alguns comentários prejudiciais, conseguiu ser mais cativante, e diria que o penúltimo conto O Estranho Crime de John Boulnois dava uma boa história à parte, da dimensão de uma novela ou de livro pequeno, se a narrativa fosse mais alongada e houvesse mais personagens; de certeza que, se fosse maior, seria explorado com maior profundidade o carácter multifacetado do ser humano, com foco no amor, ciúme e obsessão. O livro termina com O Conto de Fadas do Padre Brown, um conto que achei medíocre, com uma narrativa pouco lógica.

É mais que evidente que a minha opinião e satisfação variaram ao longo do livro, e, ao terminá-lo, decidi fazer uma pausa na coleção Padre Brown. A inconstância das histórias e o facto de haver poucos contos que eu apreciei obrigam-me a dar uma nota negativa a este segundo livro da coleção.

Classificação final: 4/10

 

A Incredulidade do Padre Brown (1926)

13/10/2023 a 20/10/2023

Capa do terceiro livro da coleção Padre Brown

 

Após uma paragem voluntária nesta coleção, eis que finalmente regresso às aventuras do padre Brown! Já sabia o que me esperava neste livro de apenas oito contos, e já estava preparado para o pior, pois o segundo livro da coleção ainda estava fresco na minha memória.

Quando digo que já sabia o que me esperava não me refiro apenas aos ocasionais comentários do narrador e da personagem titular que seriam alvo da minha discórdia, mas também me refiro ao título deste terceiro livro. Com base na leitura dos dois primeiros livros, já sabia que as várias personagens dariam uma explicação errada dos crimes, alegando atos sobrenaturais, enquanto o padre Brown se mostraria incrédulo perante tais fantasias e procura uma explicação racional para os crimes. E essas explicações sobrenaturais variam desde maldições familiares que perduram há gerações, maldições irlandesas, objetos amaldiçoados ou vultos demoníacos; temos ainda cães que preveem crimes e supostos milagres de ressurreição.

Admito que tenho uma certa dificuldade em descrever em que ponto fiquei com este livro. Por um lado, comparado com o segundo livro, temos uma melhoria na narrativa; na maior parte dos oito contos, o crime apenas ocorre a meio deste, o que permite ao leitor contextualizar-se pormenorizadamente com as personagens envolvidas, e no cenário e circunstâncias em que o delito ocorrerá; além disso, é uma mostra da capacidade de Chesterton em contar uma boa história. À semelhança do primeiro livro, os delitos integram-se naturalmente na narrativa. Porém, por outro lado, apesar de reconhecer que os mistérios conseguiram ser cativantes, senti que estes eram um pouco mais medíocres; no primeiro livro tivemos cabeças em corpos trocados, homens cuja profissão faz com que as pessoas não reparem neles, permitindo-lhes cometer o crime, duelos e identidades trocadas, um homicídio mascarado de suicídio, e uma confissão de homicídio para mascarar um suicido; no segundo livro tivemos um crime que não era um crime, uma encenação teatral que servia para ocultar o crime de desvio de dinheiro, e um suicídio causado pela paixão e feito de maneira a culpar uma outra pessoa; mas neste terceiro livro, temos menos crimes “interessantes”: temos um enforcamento, uma apunhalada, um envenenamento, e outros que não foram explícitos ao leitor.

Ou seja, neste livro, não são os crimes em si o motivo de interesse, mas sim as circunstâncias em que foram cometidos. Em três dos contos, por exemplo, temos crimes impossíveis, cometidos em salas fechadas, e, num dos contos, o leitor era levado a acreditar que o crime estava para ocorrer, quando na verdade já ocorrera. Em suma, embora a história e o elemento mistério tenham sido suficientemente cativantes para mim, o crime em si não foi; a narrativa à sua volta estava tão bem construída, que o crime, embora um elemento natural, pareceu ter sido relegado para plano de fundo.

Faço notar que este foi o primeiro livro da série Padre Brown escrito após a conversão de G. K. Chesterton ao catolicismo. Se reparei alguma diferença entre este e os restantes dois livros? Na verdade, não. Talvez a escolha do tema geral — a incredulidade da personagem titular face a explicações sobrenaturais — tenha sido o resultado dessa conversão nos livros do Padre Brown.

À semelhança dos dois outros livros, temos os habituais ataques contra o ateísmo; ou, melhor dizendo, os ataques em autodefesa contra o ateísmo. Logo no primeiro conto, A Ressurreição do Padre Brown, temos um intriguista ateu que se aproveita do padre Brown para denegrir a imagem da igreja católica; tive a impressão que Chesterton quis passar a imagem que a igreja católica se tratava de uma instituição pequena e desamparada, continuamente perseguida pelo malvado e omnipresente ateísmo, cujos agentes não têm escrúpulos.

O conto O Milagre do Quarto Crescente foi um dos mais absurdos que já li. Temos um desaparecimento impossível, visto que o quarto onde se achava a futura vítima estava fechado e, se esta saísse, teria de passar por várias personagens. A vítima trata-se de um homem que pratica várias obras de caridade, e os culpados são pessoas que foram ajudadas no passado e que guardaram rancor durante 20 anos. Ao que parece não foram ajudadas da melhor maneira: um foi para um hospício, outro para uma clínica para tratar o vício do álcool e o terceiro foi contratado pelo filantropo; porém, a obra de caridade foi feita de uma maneira fria, impessoal, tratou-se de um caso de caridade por caridade, talvez apenas para enaltecer o suposto altruísta; a vítima nem quis saber das histórias de vida das pessoas que ajudou, apenas as despachou, e, no caso daquele que contratou, a relação mantida entre ambos era fria e estritamente profissional. Digo que este conto foi absurdo por dois motivos: primeiro, desde o momento do desaparecimento do filantropo, sabemos quem é o culpado, ou um dos culpados — aquele que foi contratado —, embora não saibamos como o crime foi cometido; segundo, Chesterton, em vez de se alongar em certas temáticas (a caridade pela caridade, os efeitos dessa mesma caridade nas pessoas que são ajudadas, e o que faz um homem guardar rancor durante 20 anos), o autor decide explorar a temática do ateísmo! De facto, o padre Brown, neste conto, é o único religioso, e ele diz-nos que as restantes personagens acreditaram facilmente que a maldição proclamada por um homem furioso provocou o desaparecimento do filantropo, porque essas personagens são ateias, e os ateus, devido à sua falta de crenças, anseiam por acreditar em alguma coisa. Admito que, quando li isso, tive uma imensa vontade de atirar o livro pela janela fora! Mas, tal como disse, já estava preparado para o que este livro tinha para me oferecer.

Mas G. K. Chesterton surpreendeu-me pela positiva num determinado aspeto: os milionários. Se os ateus foram alvo das críticas de Chesterton e Brown, igualmente o foram os milionários. Num dos contos, o sacerdote começa por dizer que sabe quem é um dos assassinos, e os amigos da vítima, um milionário com uma obsessão por um objeto valioso, não mostram nem uma ponta de compaixão ao saberem que esse criminoso foi assassinado, chegando a dizer que teve o que merecia; quando o padre revela que esse criminoso era, na verdade, o tal milionário, as personagens mudam a sua opinião, mas Brown mostra ao leitor um pouco do seu sentido de justiça: a justiça deve ser imparcial! Além disso, esse conto começa da seguinte maneira: “cerca de uma centena de histórias policiais tenha principiado com a descoberta de que um milionário americano foi assassinado, acontecimento que, por razões indefinidas, se encara como uma espécie de calamidade”; como se o narrador pretendesse dizer que o assassínio de um milionário não deveria ser visto como um caso mais importante que o assassínio de um homem comum. Ademais, nesse mesmo conto, o padre Brown vê o tal milionário como “um prisioneiro e um infortunado mantido em cativeiro”. Em O Fantasma de Gideon Wise, o narrador compara os ricos a tiranos, os pobres a escravos, dizendo que há tolerância entre opressores e oprimidos; e, nesse conto; o padre Brown é da opinião que se deve pôr resistência aos movimentos bolcheviques, mas também aos monopólios comerciais, comparando os “magnates de consórcios” a reis com cortes e guarda-costas. E, é claro, em O Milagre do Quarto Crescente, temos o tal milionário filantropo que pratica as suas obras de caridade apenas por praticá-las, de uma forma fria e impessoal. Se Chesterton causou-me uma impressão negativa pela forma como abordou o ateísmo, surpreendeu-me pela positiva a forma como abordou o tema da riqueza excessiva.

Refiro de passagem a impressionante imagem da mansão decadente em O Destino dos Darnaway. Não menti, nem exagerei, quando disse que G. K. Chesterton é um bom escritor, capaz de criar uma narrativa interessante e descrições vívidas de cenários; e, ao longo desse conto, não consegui parar de comparar a velha e decadente casa dos Darnaway ao edifício de A Queda da Casa de Usher, de Edgar Allan Poe; tanto eu como as personagens sentíamos que algo sobrenatural estava prestes a acontecer. Este pequeno conto fez-me lembrar a literatura gótica, um dos meus géneros literários favoritos.

Em comparação aos dois primeiros livros, os contos do terceiro livro são maiores. Este livro fez-me aperceber que gosto do estilo de escrita de Chesterton; e sou da opinião que vários dos contos poderiam ser aperfeiçoados se tivessem o tamanho de novela ou livro pequeno.

Concluindo, à semelhança do primeiro livro, o meu nível de contentamento pouco variou nesta terceira parte da série Padre Brown. Gostei particularmente da forma como a narrativa progredia e como os mistérios se inseriam naturalmente nessa narrativa; mas achei que os próprios mistérios, embora cativantes e interessantes, não me provocaram o mesmo grau de deslumbramento que os contos do primeiro livro. Darei uma nota positiva a este livro, embora inferior ao primeiro livro.

Classificação final: 7/10

 

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