Relatório Minoritário e Outros Contos - Philip K. Dick
Há determinados livros ou escritores que, por uma razão qualquer,
continuamos a adiar a sua leitura. Talvez nos deparamos com outros livros que
temos mais vontade de ler nesse momento, ou talvez não nos sentimos
verdadeiramente preparados para ler esse livro ou autor, por muito que o
queiramos ler. No meu caso, um desses escritores é Philip K. Dick.
Sempre que me dirigia àquela secção das livrarias onde normalmente estão os livros de fantasia e ficção-científica e via os livros de PKD, eu dizia para mim mesmo: “Ah, Philip K. Dick. Gostei do Será que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?. Tenho de ler mais livros dele. Eh, fica para outra altura, não hão de faltar oportunidades!” E, assim, ia sempre adiando essa altura.
A minha relação com a Ficção-Científica (FC) é mais turbulenta que a minha relação com o género de fantasia ou com os clássicos. Embora reconheça que a FC seja um dos meus géneros literários favoritos, dou primazia aos clássicos. Tal como disse no início, nem sempre temos a vontade ou o mood certo para se ler um certo livro. A vontade surgiu na Feira do Livro do Porto, onde encontrei o livro, em segunda mão e com provas de ser usado, a ser vendido a um preço mais acessível que aquele por qual é vendido nas livrarias.
Relatório Minoritário e Outros Contos, da editora Relógio d'Água
A Ficção-Científica pode ser vista como um género literário que lida de uma forma credível com possíveis eventos futuros, usando conceitos como tecnologia avançada, extraterrestres, vida artificial, realidades alternativas ou paralelas, viagens temporais.
Trata-se de um género literário relativamente recente, mas sempre houve trabalhos com elementos considerados como FC, como viagens pelo espaço, animais mecânicos, ou autómatos.
É a partir do século XIX que a FC começa a ganhar contornos mais nítidos. É nesse século que Mary Shelley dá ao mundo Frankenstein, e O Último Homem: o primeiro, a história de um cientista que cria um ser a partir de cadáveres humanos, e o segundo, uma história sobre uma Europa apocalítica e distópica no século XXI. Hoffmann e Edgar Allan Poe publicam vários contos ao longo do século, alguns com elementos de FC ou pertencendo inteiramente a este género. Jules Verne escreve Da Terra à Lua, À Volta da Lua, e Vinte Mil Léguas Submarinas, e Robert Louis Stevenson escreve O Médico e o Monstro. No final deste século, surgem as primeiras obras de H. G. Wells, um dos escritores mais influentes neste género, com A Guerra dos Mundos, e A Ilha do Doutor Moreau. No século XX, surgem outros escritores notáveis, como Hugo Gernsback, Arthur C. Clarke, Isaac Asimov, Ray Bradbury Philip K. Dick, Robert A. Heinlein, Frank Herbert, Ursula K. Le Guin.
Da esquerda para a direita: Jules Verne, H. G. Wells e Hugo Gernsback. Por vezes chamados de "os pais da Ficção-Científica moderna".
Enfim, a lista de escritores e obras neste género é imensa, bem como a variedade de temáticas. A FC é mais do que perseguições espaciais e armas futuristas. Alguns outros temas recorrentes incluem realidades alternativas, biologia especulativa, cenários distópicos ou pós-apocalípticos, tecnologia que ainda não existe, ou sistemas sociais alternativos.
A FC preocupa-se também em responder às questões mais incómodas que podemos pensar, desde a existência de deuses ou vida extraterrestre, à melhoria das condições de vida e à distinção entre o que é real ou não. Este género literário é tantas vezes usado para discutir questões filosóficas, éticas, sociais e políticas, que quando lemos FC, lemos algo para além de extraterrestres, robôs, naves e armas espaciais; lemos algo que nos faz refletir nas várias questões profundas que desde sempre preocuparam o ser humano.
E onde se insere Philip K. Dick na ficção-científica? PKD foi um escritor americano do século XX, com uma vasta obra na área da FC, especialmente no formato de contos. A sua obra abrange várias temáticas como a perceção da realidade, identidade humana, distinção entre vida artificial e natural, realidades alternativas, uso de drogas, e ainda empresas controladoras ou governos autoritários.
Dick deixou uma obra que continua relevante nos dias de hoje. Além disso, vários dos seus contos e livros foram adaptados ao cinema e à televisão. Blade Runner (1982), baseado em Será que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, teve a sua estreia no cinema quatro meses após a morte de PKD, Minority Report (2002) é uma adaptação do conto homónimo, O Homem do Castelo Alto foi adaptado a série em 2015, e, em 2017, vários dos seus contos foram adaptados para televisão.
Relatório Minoritário e Outros Contos – Relógio d’Água
15/11/2023 a 21/11/2023
Este livro contém 14 contos, publicados de 1953 a 1974, que podem ser considerados uma amostra interessante da obra de PKD. Alguns dos temas recorrentes nestes contos incluem a distinção entre vida artificial e natural, perceção da realidade, a luta contra as máquinas e a relação entre a humanidade e a sua casa.
Surpreendentemente para mim, notei que havia uma reutilização da temática da guerra. Mas, afinal de contas, guerras são comuns em Ficção-Científica; porque haveria de me surpreender? Porque tive a impressão que havia uma preocupação genuína com essa temática; não nos esqueçamos que estes contos foram escritos durante a Guerra Fria, sendo que os dois primeiros foram publicados oito anos após a Segunda Guerra Mundial. Durante a época da Guerra Fria, havia a constante preocupação com respeito a um possível bombardeamento; ambos os lados da Guerra Fria tinham armas de destruição maciça, e uma cidade ou urbanização poderia ficar reduzida a pó em meros segundos; ao mesmo tempo, ambos os lados aprimoravam essas armas, lutavam indiretamente em proxy wars, manipulavam regimes de outros países, e competiam pela exploração espacial. A Guerra Fria não deixa de estar presente nestes contos de Dick; é a causa da devastação do planeta em Segunda Variedade, Autofab, No Tempo da Rita Catita. Mas diria que a preocupação de PKD é mais visível em Brigada de Retificação (Adjustment Team, 1954); neste conto, uma empresa misteriosa que existe noutro plano de realidade leva a cabo pequenos ajustes na nossa realidade, entre eles, o ajuste de uma firma de imobiliário que, através de várias pequenas ações, acabará por ser a responsável indireta pelo amenizar das tensões durante a Guerra Fria.
Mas, claro, uma das temáticas que mais salta à vista ao leitor é a vida e a inteligência artificial, e a dificuldade em distinguir o que é artificial e o que não é.
Em Segunda Variedade (Second Variety, 1953), a Terra ficou devastada pela guerra, e a humanidade teve de ir para colónias lunares, ficando na Terra apenas os combatentes de ambos os lados; a ONU (um dos lados), cria fábricas independentes, ou seja, máquinas programadas para construir, reparar e atualizar e melhorar robôs de guerra para combater o lado soviético. Porém, como as próprias máquinas eram responsáveis pela programação dos robôs, estes deixaram de fazer distinções entre soldados, passando a atacar ambos os lados, e tornaram-se tão aperfeiçoados que as personagens principais — um major americano e três soldados do lado soviético — desconfiam uns dos outros. Algumas das criações, ou variedades, das fábricas automáticas incluem um soldado ferido a pedir ajuda e uma criança órfã com um boneco de peluche. Mas é nas outras duas variedades que é evidente a capacidade da Inteligência Artificial em simular emoções e interagir com humanos de uma maneira convincente. Enfim, este conto leva-nos a desejar limites e regras urgentes às inovações na área da IA, antes que a humanidade deixe de distinguir o que é real e o que é artificial.
Em O Impostor (Imposter, 1953), surge a mesma temática da distinção entre o natural e o artificial: a personagem principal não sabe se ele próprio é um robô ou um ser humano. Tem sensações físicas, sentimentos e memórias, mas terá tudo isso sido programado, ou será genuíno?
Em Autofab (Autofac, 1955), quando um robô se prepara para falar com um grupo de humanos, o narrador revela-nos o seu sistema de comunicação:
“Tratava-se de uma gravação, feita antes da guerra por um técnico qualquer do Instituto. […] O’Neill imaginou com toda a nitidez o jovem, já morto, cuja voz alegre emergia agora da boca mecânica daquela construção […]
A voz otimista calou-se com um estalido, e uma segunda voz fez-se ouvir. […] A máquina servia-se do padrão discursivo fonético do morto para levar a cabo a sua própria comunicação.”
Ou seja, Inteligência Artificial a usar o padrão discursivo de uma determinada pessoa para gerar frases novas — um dos assuntos dentro da área da tecnologia mais preocupantes nos nossos tempos atuais. Curiosamente, li este conto na mesma semana que se soube que usariam IA para recriar a voz de Édith Piaf, falecida em 1963, num filme sobre a sua vida.
A luta entre a humanidade e a Inteligência Artificial é um dos temas centrais em Segunda Variedade e Autofab. Neste último, um grupo de pessoas tenta recuperar o controlo da produção industrial, após a criação de fábricas automáticas durante o tempo de guerra; compreende-se perfeitamente a revolta da humanidade contra robôs que controlam por completo a recolha de matérias-primas e o seu processamento, e a distribuição de bens de necessidade.
A dificuldade em distinguir o real do falso é também mencionada em Recordações por Atacado (We Can Remember It For You Wholesale, 1966), onde uma empresa é capaz de implantar falsas memórias nos cérebros das pessoas; consigo, infelizmente, imaginar algumas pessoas a defender a implementação das falsas memórias, alegando, tal como o chefe dessa empresa, que as memórias falsas e implementadas serão mais nítidas que as verdadeiras memórias, cheias de distorções e omissões.
Temos, também, a forma como nós percecionamos a realidade. Dick não seria Dick se não falasse de realidades alternativas ou de formas para alterar a realidade. Em A Fé dos Nossos Pais (Faith of Our Fathers, 1967), por exemplo, o mundo é governado por um líder supremo cujo partido usa drogas alucinogénias para manter a população sob controlo, fazendo-lhes ver uma realidade alterada conforme a vontade do partido.
Em A Formiga Elétrica (The Electric Ant, 1969), um dos contos que mais gostei, a personagem principal não sabia que era um robô. É de notar que este dilema já foi abordado num conto prévio (O Impostor, 1953); por isso, Philip K. Dick não se alonga muito nesse assunto, como se dissesse que no futuro a incapacidade de sabermos se somos ou não humanos se tornará algo comum. Em vez disso, Dick dá-nos uma personagem que quer mexer nos seus mecanismos internos de maneira a alterar a forma como perceciona a realidade à sua volta. Ao ler o conto, o leitor é obrigado a questionar-se: se cada pessoa perceciona o mundo à sua volta de uma maneira diferente, existirá sequer uma realidade objetiva, comum a todas as pessoas? Ou será que alguns elementos que julgamos serem reais são na verdade produtos da nossa imaginação? Este conto pode ser sumariado a uma das questões essenciais na obra de PKD: o que é real e o que não é?
Outro conto que me surpreendeu imensamente foi No Tempo da Rita Catita (The Days of Perky Pat, 1963). A humanidade é forçada a viver em bunkers após uma guerra apocalíptica, e obtém alimentos e outros bens essenciais através da caridade de marcianos. O que achei mais interessante foi o retrato das duas gerações de humanos: aquela que viveu na Terra antes da guerra, e aquela que nasceu depois da guerra. A geração mais velha, os adultos, passam grande parte do dia num jogo de interpretação com a boneca Rita Catita, numa tentativa de recriar pormenorizadamente os dias antes da guerra. Os sobreviventes usam alguns dos objetos dados pelos marcianos para criar mais acessórios para o seu jogo, de maneira a ter mais pormenores. No entanto, os seus filhos, que nasceram após a guerra e nunca experienciaram a vida antes desta, não têm qualquer interesse nesse jogo e tentam adaptar-se à nova vida, explorando a paisagem desolada à sua volta ou caçando com armas improvisadas os poucos animais que sobreviveram. Ora, no desenlace do conto, alguns habitantes de um bunker apercebem-se que a humanidade tem de seguir em frente, deixar de viver no passado, aceitar o que aconteceu à Terra e, tal como os filhos, adaptar-se às novas condições, atentando “às novas oportunidades e às possibilidades que o futuro lhes reservava”. Uma mensagem intemporal usada num cenário de Ficção-Científica.
Por fim, tanto em Relatório Minoritário (Minority Report, 1956) e Tenham Pena dos Temponautas (A Little Something for Us Tempunauts, 1974), é explorada a temática da linearidade do tempo, seja através da existência de linhas temporais alternativas ou de ciclos temporais repetitivos.
É curioso notar que, ao contrário, talvez, de muitos trabalhos genéricos de FC, as personagens principais de PKD não são esbeltas, enérgicas, dispostas para a ação; em suma, não são o herói ideal. Pelo contrário, são heróis realistas, com defeitos e preocupações reais. Em O Impostor e Recordações por Atacado, as personagens principais estão cansadas da vida que levam, desejando folgas no trabalho ou viagens espaciais. Em Relatório Minoritário, o chefe da polícia está longe de ser um Tom Cruise, tendo sido descrito como “careca e gordo e velho” e com uma preocupação genuína em ser substituído no emprego por alguém mais jovem e vigoroso que ele. Em Precioso Artefacto, a nossa personagem encontra-se desejosa pela reforma, e, por último, em Tenham Pena dos Temponautas, há sintomas depressivos numa das personagens.
Philip K. Dick é um escritor surpreendentemente atual. Vários dos assuntos abordados nestes 14 contos continuam a ser relevantes na sociedade moderna, especialmente com o advento da Inteligência Artificial. PKD e a sua vasta obra continua relevante, e a sua leitura é digna de análise e reflexão.
Não digo que Philip K. Dick é um dos meus escritores favoritos. Este é o segundo livro que leio dele, e, tal como o Será que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, gostei do livro. O estilo de escrita torna este autor facílimo de se ler, e os assuntos abordados são interessantes, especialmente para quem gosta de Ficção-Científica. No entanto, considero esses mesmos assuntos como pesados, capazes de assombrar e perturbar alguns leitores; por vezes ficava uma sensação incómoda, mas natural, em mim, causada pela seriedade desses assuntos; afinal de contas, é natural certos livros deixarem-nos desconfortáveis. Por isso, tive uma curiosa sensação de alívio e satisfação quando terminei o livro — satisfeito por terminar um excelente livro de um excelente escritor, e aliviado por me livrar desse desconforto, e passar para uma leitura mais alegre. Dou ao livro uma classificação positiva, e apenas não dou nota máxima por causa dessa mesma sensação incómoda.
Classificação final: 9.5/10



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