Retrospetiva 2023
Chegamos, amigos leitores, ao final de mais um ano no Calendário Gregoriano! A Terra completou mais uma volta ao redor do nosso astro, e com isso completamos nós mais outro ano, ora passando por desgostos, ora por felicidades, ora em constante pressa, ora em repouso total. A única coisa que parece ter sido constante foi o prazer dos livros: de os ler ou apenas de olhar para as suas capas e lombadas, de falar sobre eles ou de ouvir outros a fazê-lo, e, é claro, o prazer de simplesmente ter um livro à nossa beira, mesmo que não pretendemos lê-lo nesse momento.
E este foi um longo ano; um ano muito estranho porque pareceu longo, mas simultaneamente apressado! Como é possível estarmos nós em dezembro? Ainda há uns dias era março! Cruel passagem do tempo, porque não te prolongas ou te deixas atrasar, para que nós, teus súbditos, tenhamos mais tempo para ler!
No meio das tarefas domésticas, dos empregos e dos estudos, das rotinas e trânsito e não sei que mais, é complicado arranjar-se tempo e vontade para ler. Mas quer tenham lido um livro ou duzentos livros este ano, pouca diferença faz: porque o importante é não deixar escapar essa paixão pela leitura. De números o mundo já está feito: uma massa amorfa de lógica e estatística que só interessa àqueles que vêm números sem ver as pessoas; mas são os prazeres e as paixões que realmente importam: o prazer de ler, de caminhar, de escrever, de ver futebol com os amigos enquanto se come tremoços e se bebe cerveja. Ao fim de uma longa vida, tal como ao fim de um longo ano, não são os números que nos ficam na memória, mas sim os bons momentos vividos.
O número de livros que alguém leu num certo ano não passa de uma medida objetiva. E considero ridículo fazer-se comparações com essa medida. Porque cada um tem os seus gostos diferentes, ou horários que, infelizmente, o impeçam de se dedicar ao gosto pelos livros; e há também pessoas com dificuldades na leitura, seja porque não conseguem concentrar-se durante muito tempo a ler, seja por outro motivo qualquer, como dislexia.
Se devemos pôr de lado a ideia de que a quantidade de livros que uma pessoa lê num ano serve para julgar a qualidade dessa pessoa, o mesmo devemos fazer com a ideia de que uma pessoa apenas deveria ler determinados livros, como as obras dos grandes escritores do passado. Cada um tem os seus gostos, e lá por alguém não gostar de Shakespeare, Dickens, Eça, ou outro escritor que neste momento já está a dormir o sono eterno, isso não quer dizer que se deva invalidar as suas escolhas de leitura. É claro que há livros medíocres, ou maus, a fazerem parte de modas; sempre houve modas literárias, e sempre houve livros medíocres nessas modas; mas essas modas, ou trends, nas redes sociais, pelo menos têm o lado positivo de introduzir os jovens, ou outras pessoas que ainda não tinham adquirido o gosto pelos livros, ao mundo dos livros; aliás, pergunto-me o que terá maior influência na introdução de um adolescente à leitura: livros obrigatórios na escola, ou um vídeo de 15 segundos feito por um influencer qualquer. Em suma, o importante é ler; por vezes, o material de leitura pode não ser dos melhores, mas sempre é melhor que nada! Seja um livro épico que fala da era napoleónica, das invasões francesas no Império Russo e as relações entre vários membros da alta-sociedade russa do século XIX, seja um livro romântico moderno que viralizou numa rede social, seja um manual de instruções de uma máquina de café, o importante é ler alguma coisa. E, para quem não gostar de ler, espero que essas pessoas tenham encontrado passatempos que lhes deem tanto prazer quanto a leitura nos dá a nós, leitores.
Enfim, por vezes convém fazer-se uma retrospetiva do ano que passou: pensar nos bons e nos maus momentos, no que fizemos e no que poderíamos ter feito. Sendo este um blog de literatura, e não um blog de desabafos pessoais — apesar de ser possível encontrar um ou outro desabafo pessoal em alguns dos posts —, creio que se justifica perfeitamente fazer-se apenas uma retrospetiva literária.
Assim, neste ano de 2023 li 21 livros. Se isso é um bom número ou não, tal como eu disse, não quero saber. Foi o que li, ponto final. Comparativamente a outros anos, li mais; mas, mais uma vez, isso pouco me interessa, porque no próximo ano posso ler menos; o que importa é ler. Eu preciso de ler porque preciso de uma maneira de escapar à realidade a que estou preso; não que eu seja daquelas pessoas que conseguem inserir-se no meio das personagens e história de um livro, mas enquanto leio, esqueço, em parte, que o que está à minha volta existe: passam apenas a existir eu e o livro. Leio, também, para conhecer as histórias das várias personagens, para explorar as temáticas de um determinado enredo; apenas não leio para extrair lições ou para aprender, se bem que não nego que certos livros me ficaram na memória por causa de alguma mensagem que deles extraí.
Além disso, cada um de nós tem velocidades de leitura diferentes, por isso nunca faço comparações com outros se o que li num ano foi muito ou pouco.
Enfim, da lista de livros lidos este ano, apenas não conto o Grandes Esperanças, de Charles Dickens, pois terminei-o logo no início do ano. Os restantes livros são:
· Bons Augúrios – Neil Gaiman e Terry Pratchett;
· O Olho do Mundo – Robert Jordan;
· O Adeus às Armas – Ernest Hemingway;
· A História Interminável – Michael Ende;
· Pachinko – Min Jin Lee;
· Os Filhos de Húrin – J. R. R. Tolkien;
· O Palácio do Desejo – Naguib Mahfouz;
· Ensaio Sobre a Cegueira – José Saramago;
· As Vinhas da Ira – John Steinbeck;
· Momo – Michael Ende;
· David Copperfield – Charles Dickens;
· Anna Karénina – Lev Tolstoy;
· As Histórias Completas do Padre Brown (coleção de cinco livros) – G. K. Chesterton;
· Contos Nocturnos – E. T. A. Hoffmann;
· As Aventuras do Capitão Hatteras – Jules Verne;
· Relatório Minoritário e Outros Contos – Philip K. Dick;
· Tom Jones – Henry Fielding.
Ora, é impossível gostarmos todos dos mesmos livros; de certeza que encontrarão nesta lista algum livro ou escritor que considerem mais aborrecido ou fora dos vossos gostos literários. Mas também é impossível gostarmos na mesma medida de todos os livros que lemos num ano; há sempre livros que nos impressionaram menos que os restantes, ou que foram mais difíceis ou aborrecidos de se ler; por isso é costume tentarmos concluir quais foram as nossas leituras favoritas num determinado ano. Porém, classificar objetivamente livros com enredos, cenários, temáticas e géneros diferentes não parece muito lógico, visto que cada livro é único à sua maneira; também é difícil dizer que um determinado livro é melhor que o outro, porque os gostos variam de pessoa para pessoa — e a existência de livros melhores que os outros é um debate à parte que não pretendo explorar neste momento! O que posso fazer é escolher os cinco livros que mais gostei de ler este ano, sem com essa lista pretender concluir que o livro que mais gostei é objetivamente melhor que o quinto livro da lista; é apenas uma curta lista que reflete, por ordem crescente, os meus livros favoritos de 2023.
· Quinto lugar: Momo, de Michael Ende. Uma história fofa e emotiva dentro dos géneros de fantasia e literatura infantil, que acompanha as aventuras de Momo, uma pequena rapariga órfã que habita nas ruínas de um anfiteatro. Momo ajudará os seus amigos e habitantes de uma vila próxima contra os malvados Homens Cinzentos que pretendem roubar o tempo às pessoas, obrigando-as a que todas as suas atividades, incluindo os passatempos, sejam produtivas. É uma história sobre a sociedade moderna, a produtividade e o lazer.
· Quarto lugar: Pachinko, de Min Jin Lee. A primeira vez que entro em contato com um livro cujo cenário de fundo é a Ásia, mais concretamente a Coreia do Sul e o Japão, de 1910 a 1989. Um livro do género de ficção-histórica que acompanha Sunja e a sua família, retratando as várias dificuldades que os imigrantes coreanos encontraram no Japão. A discriminação, os estereótipos e a luta pela sobrevivência são as temáticas principais neste livro; encontram-se também as consequências das duas guerras mundiais nas sociedades coreanas e japonesas, a incerteza da vida, e o papel das mulheres. Um livro que vale a pena ser lido especialmente para nos inteirarmos das dificuldades passadas por esses imigrantes.
· Terceiro lugar: As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. Um épico, um clássico da literatura americana, um livro que dificilmente é esquecido por alguém que o leu. Publicado em 1939, retrata as consequências da Grande Depressão e do Dust Bowl — um período com várias tempestades de poeira — para os agricultores das planícies do centro dos Estados Unidos da América. O livro acompanha a viagem da família Joad do Oklahoma para a Califórnia, um estado que representava a salvação, a oportunidade para se ter um emprego e um futuro seguro, para esses agricultores prejudicados. É um livro fácil de se ler, mas de temáticas complexas, abordando as dificuldades dos migrantes americanos, a discriminação por parte dos seus compatriotas, as horríveis práticas com o intuito específico de prejudicar esses migrantes, e a mentalidade das figuras da lei e de outros que poderiam ter ajudado o seu próprio povo, mas não o fizeram. É um livro surpreendente que deixa ao leitor com a mesma ira que fermentava nos pobres migrantes. Sem dúvida um dos melhores livros que li este ano, e que merece uma releitura futuramente; mas não foi, infelizmente, o meu livro favorito.
· Segundo lugar: David Copperfield, de Charles Dickens. O que posso dizer? Dickens é um dos meus escritores favoritos e terá sempre lugar nas minhas prateleiras. David Copperfield é um livro tipicamente dickensiano, que acompanha a personagem titular desde a sua infância até aos primeiros anos da vida adulta. Tal como outros livros de Dickens, as inúmeras personagens deste livro desfilam pelos mais variados cenários e interagem umas com as outras criando um enredo complexo, mas colorido, emocionante e cativante. E, tal como o enredo, as personagens são igualmente coloridas e complexas; não há uma que não nos surpreenda, seja pela sua bondade, vilania, ou outros traços da sua personalidade. É um romance de formação, com foco nas dificuldades e peripécias passadas por David Copperfield, nos papéis das figuras paternais e maternais, nas dificuldades dos mais carecidos, e na hipocrisia ou brutalidade daqueles que pretendem subjugar os outros à sua vontade. É o meu livro favorito de Dickens até agora, e indispensável para quem gostar dos clássicos.
· Primeiro lugar: Anna Karénina, de Lev Tolstoy. Considerado uma das melhores obras escritas; há quem goste do livro, há quem não goste. Eu considero-o o meu livro favorito de 2023. Trata-se de um romance da literatura russa cuja ação se desenrola na segunda metade do século XIX, e centra-se em várias relações de membros da alta sociedade russa. O livro tem como principais temáticas o amor, a traição, família, casamento, sociedade russa, os trabalhadores rurais e as diferenças entre Moscovo e São Petersburgo e entre a cidade e o campo; há, também, a temática do adultério, da preocupação com a opinião pública, e da morte e do perdão. O livro pode ser visto como uma análise à sociedade, sendo que um dos enredos principais se trata de um caso extraconjugal e as suas implicações para as pessoas envolvidas e as que estão à sua volta. Tolstoy retrata, também, as várias facetas da natureza humana, como a ambição, a paixão, a hipocrisia, o desespero, através de monólogos internos ou capítulos em diferentes pontos de vista. É um livro que explora essas temáticas de uma forma profunda através das suas várias personagens; e essas personagens modificam-se com o decorrer da história, o que coloca em relevo o carácter complexo da natureza de uma pessoa; quase se pode dizer que não há vilões nem heróis, pois todas as personagens têm as suas qualidades e os seus defeitos e, dentro dos limites das suas personalidades, todas as suas ações ou opiniões parecem-se justificáveis. Foram a tremenda complexidade psicológica e a forma como as várias temáticas foram abordadas que me prenderam ao livro, fazendo-o valer o lugar do meu livro favorito deste ano.
Admito que fazer esta escolha não foi das mais fáceis. Não houve quaisquer dúvidas quanto ao primeiro lugar, mas decidir entre David Copperfield e As Vinhas da Ira, dois livros com temáticas, cenários e estilos de escrita tão diferentes, foi tão complicado que quase os colocava a ambos no segundo lugar; mas acabei por dar primazia a Dickens, que é um dos meus escritores favoritos. No entanto, a escolha do quinto lugar envolveu um pouco mais de reflexão, pois a pequena Momo teve de competir com os restantes livros deste ano; achei mais que justo que Bons Augúrios, Ensaio Sobre a Cegueira, ou Tom Jones fossem suplantados por um livro que me deixou enternecido do início ao fim e que passasse uma mensagem comovente que pode ser aproveitada tanto por miúdos como por graúdos.
Deste ano ficam as boas impressões de maior parte dos livros que li: as suas personagens, as mensagens passadas, temáticas, enredos; creio que não esquecerei o humor de Bons Augúrios ou Tom Jones, do fantástico mundo criado por Robert Jordan, dos sofrimentos amorosos de Khamal e dos dilemas da sua família num Egito em mudança, dos temas explorados por Philip K. Dick que continuam relevantes atualmente, ou ainda a figura de um pequeno padre inglês, com o seu chapéu preto, sotaina e guarda-chuva, a resolver crimes.
Ora, por vezes uma retrospetiva é acompanhada por uma perspetiva. A reflexão daquilo que fizemos ou não fizemos num ano serve de incentivo para pensarmos naquilo que poderemos fazer no ano seguinte. O mesmo se aplica às nossas leituras.
Quem olhar para a minha biblioteca pessoal em crescimento reparará em algumas coisas, como uma prateleira apenas para escritores britânicos, sendo que metade dela está ocupada por Dickens, mas também reparará na pouca representatividade de escritoras ou autores portugueses.
Quanto aos portugueses, apenas tenho quatro livros! Quatro! Aí está uma coisa que precisa de ser corrigida. Mas quais serão esses quatro livros que tiveram a honra de pertencer a tal seleto grupo? Contos de Eça de Queiroz, Os Maias, do mesmo autor, Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago, e Os Canibais e Outros Contos, de Álvaro do Carvalhal. Valham-me os céus! A literatura portuguesa é tão vasta e bela, e eu só li esses quatro livros! Assim sendo, pretendo ler mais livros de Queiroz e Saramago, mas também ler, pela primeira vez, outros escritores portugueses como Aquilino Ribeiro, Júlio Dinis, ou Agustina Bessa-Luís.
E com respeito a livros de escritoras apenas tenho dois: Pachinko, de Min Jin Lee, e Nils Holgerson, de Selma Lagerlöf. E então Jane Austen, as irmãs Brontë, Virginia Woolf, Sylvia Plath, Ursula K. Le Guin, Toni Morrison, Harper Lee, Margaret Atwood, Mary Shelley, entre outras, não terão elas espaço por entre os restantes livros? Mas é claro que sim! Serão sempre bem-vindas, e anseio pelo momento de ler os seus livros.
E então os restantes escritores? Pretendo continuar com Dickens, Tolkien e Jules Verne, e ainda terminar a Trilogia do Cairo, de Naguib Mahfouz. Estou indeciso, porém, se leio o segundo livro da série A Roda do Tempo, de Robert Jordan, no próximo ano. Também gostaria de regressar a H. G. Wells e John Steinbeck, ler pela primeira vez Robert Louis Stevenson, William Faulkner e muitos outros escritores.
Não sou apreciador de criar listas de leitura. Normalmente, escolho as próximas leituras através de decisões no momento, e não por causa de listas planeadas; a criação de listas pode, por vezes, dar uma sensação de obrigatoriedade à leitura, e a leitura não deve ser vista como uma obrigação. Nos parágrafos anteriores mencionei 26 escritores diferentes; não é muito realista — pelo menos para mim — ler um livro de cada um deles num ano. Muito menos gosto de estabelecer objetivos numéricos com respeito aos livros. Não gosto de dizer: se este ano li 15 livros, no próximo tenho de ler 20. Leio o que puder e o que quiser ler, a despeito de qualquer lista ou número.
Assim sendo, ficarei, por enquanto, na expectativa de saber que livros lerei no próximo ano. A única coisa que é certa é que darei prioridade aos clássicos, à fantasia e à ficção-científica.
E assim termino esta longa retrospetiva de 2023 e as minhas perspetivas para 2024. O que mais posso dizer a não ser…
Feliz Ano Novo, e boas leituras!






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