As Histórias Completas do Padre Brown - G. K. Chesterton (Parte III)
Esta é a terceira e última parte com respeito à coleção de livros As Histórias Completas do Padre Brown, e inclui duas críticas aos livros quatro e cinco. A primeira parte, que inclui uma introdução e a minha opinião com respeito ao primeiro livro, pode ser lida em: As Histórias Completas do Padre Brown - G. K. Chesterton (Parte I). E a segunda parte, com a minha opinião do segundo e terceiro livros, encontra-se em: As Histórias Completas do Padre Brown - G. K. Chesterton (Parte II).
O Segredo do Padre Brown (1927)
07/11/2023 a 10/11/2023
Capa do quarto livro da coleção Padre Brown
Finalmente, termino o quarto e penúltimo livro da coleção! Estou quase a chegar ao fim desta jornada com o padre Brown como meu companheiro. E, na verdade, o padre Brown é um companheiro interessante para se fazer uma viagem. Mas já explicarei um pouco melhor.
O livro começa com uma pequena introdução: o padre Brown a visitar Flambeau, agora reformado da sua carreira de detetive, a viver com a sua família num castelo provinciano espanhol. E Flambeau tem uma outra visita também, que acaba por ficar curioso quanto aos métodos de Brown. É-nos revelado que o sacerdote se coloca no papel do criminoso, imaginando-se ele próprio a cometer o crime, o que lhe permite chegar ao culpado. E as histórias deste livro constituem exemplos que padre Brown deu ao tal visitante para melhor explicar o seu método, sendo que o último conto funciona como continuação dessa introdução.
Na verdade, pouco tenho a dizer quanto ao quarto livro da coleção; parece que voltei ao primeiro, e digo isto de maneira positiva. Não houve nenhuma história que fosse notavelmente má — se bem que A Lua Vermelha de Meru foi a que menos gostei, e também não apreciei muito a conclusão de O Inconsolável Enlutado de Marne — e a apreciação geral pouco variou ao longo do livro; por isso, ao contrário do que fiz com o segundo e terceiro livros, não vejo necessidade de rever os contos individualmente.
O estilo pouco variou. O mistério continua a misturar-se naturalmente com o enredo, embora em algumas histórias este aparece no início. Chesterton continua com a sua excelente narração e descrição de cenários, gestos e expressões faciais. Algumas das descrições que mais me ficaram gravadas foram as luzes do jardim do juiz Gwynne, em O Espelho do Magistrado, capazes de mesmerizar uma pessoa mais poética, e a imobilidade ominosa de Hugo Romain durante o clarão de um relâmpago, em O Inconsolável Enlutado de Marne.
Neste quarto livro, cheguei a duas conclusões quanto às Histórias do Padre Brown. Primeiro, como já havia notado na introdução desta série de publicações, certos detalhes importantes para a resolução dos mistérios vão sendo revelados no decorrer da história, sendo que maior parte das vezes é Brown que os revela; havia dito que considerava isso uma batota e injustiça para os leitores, mas agora acrescento que, apesar de ainda achar uma injustiça, considero uma maneira de prender o leitor à história e também como um elemento normal na progressão natural da curta narrativa de um conto. O objetivo de Chesterton não era criar um “jogo” onde são expostos inicialmente todos os factos de um crime, e depois o leitor tem de adivinhar o culpado antes de Brown prosseguir com as suas explicações; o objetivo era criar pequenas histórias com um mistério envolvido e ter um padre a resolver esses mesmos mistérios, sendo que o papel do leitor é simplesmente acompanhar o padre Brown e as restantes personagens envolvidas na história.
E isto leva-me à minha segunda conclusão: o padre Brown daria um interessantíssimo companheiro de viagem. Tem os seus momentos introspetivos e também é um bom conversador. Em várias das histórias tem um companheiro — geralmente, uma das personagens que conhecia a vítima — que vai mantendo informado quanto ao seu raciocínio. Além disso, recordem-se que o livro é, tecnicamente, o padre Brown a descrever crimes e as suas resoluções a um desconhecido; o padre daria um bom contador de histórias, daquelas histórias que se ouve numa longa viagem de comboio, ou então à lareira numa noite chuvosa. Quem não gostaria de ouvir uma história misteriosa nessas circunstâncias?
Para terminar, digo que há na mesma alguns aspetos negativos que perduram neste quarto livro. Alguns comentários pejorativos — embora reparei que se achavam em menor quantidade, mas, quando aparecem, continuam bem irritantes —, partes mais aborrecidas, como monólogos extensos, e por vezes a resolução ou conclusão de um mistério não foi propriamente satisfatória, por muito interessante que tenha sido a história. Mas todos esses problemas existem desde o primeiro livro, e considerando todos os aspetos, positivos como negativos, acabei por ter um impressão geral positiva deste livro. Assim sendo, não darei uma nota nem inferior nem superior à do primeiro livro.
Classificação final: 7.5/10
O Escândalo do Padre Brown (1935)
10/11/2023 a 14/11/2023
Garanto-vos, caros leitores, que consigo imaginar o padre Brown a despedir-se de mim após ter terminado este livro, o último da coleção Histórias Completas do Padre Brown.
Termino este livro da mesma maneira que se termina uma viagem: por vezes, não é o destino que conta, mas sim a viagem em si; chega-se ao destino com um certo grau de satisfação, não só por termos alcançado o objetivo final, mas também pela jornada empreendida. E é assim que me considero; satisfeito por ter terminado essa viagem.
Maior parte das histórias deste último livro continuaram boas o suficiente para me entreter. Os mistérios continuaram interessantes: falsos homicídios, cadáveres desaparecidos, supostos desaparecimentos causados por um livro amaldiçoado, pistas falsas para salvar a reputação de um negócio. E alguns destes contos assumem um carácter quase cómico, mas no bom sentido; temos pregadores abstémios que decidem apregoar num bar contra as bebidas alcoólicas, um homicida que afoga um homem numa lagoa, em vez de o afogar e atirar ao mar, a umas poucas dezenas de metros, e um homem que inventa crimes apenas para que o seu patrão repare nele.
Mas, apesar de ter gostado das histórias no geral, senti lhes faltava alguma coisa; senti que as histórias eram um pouco mais medíocres. Lembro-me dos enredos, mas estes não me deixaram qualquer forte impressão. Eram apenas histórias que nos servem para entreter, ou passar o tempo. E não há qualquer problema nisso! As histórias eram boas e interessantes, as personagens e os cenários estavam bem descritos e os mistérios continuaram cativantes.
Pouco tenho a acrescentar quanto a este quinto e último livro, infelizmente. Todas as minhas principais conclusões deram-se com a leitura do quarto livro, como se tivessem sido resultado de uma epifania. Talvez tenha sido por isso que considerei este livro não tão bom quanto o quarto.
Recapitulando, quais são essas principais conclusões? Os contos parecem-se apropriados para se ler durante uma viagem longa e monótona, ou ainda à lareira, enquanto o leitor se encontra de robe quentinho e confortavelmente sentado num cadeirão. Segundo, o padre Brown daria um interessantíssimo companheiro de viagem. E, por último, o narrador não revela imediatamente todos os pormenores ou pistas, não porque quer enganar o leitor, mas sim porque quer que este acompanhe o padre Brown, como se realmente estivesse numa viagem com ele.
Este último livro, tal como o quarto, é a prova dessas conclusões. Apenas falhou por não me ter impressionado da mesma maneira que o quarto ou primeiro livro da coleção. Por tal motivo, darei uma nota positiva, mas inferior à desses dois livros.
Classificação final: 7/10
Considerações finais
Ler estes livros foi, de facto, uma viagem! E, tal como o fim de cada viagem, temos de nos despedir dos nossos companheiros ao longo desta. Despeço-me do padre Brown e de todas as personagens que o acompanharam nas suas aventuras detectivescas. Despeço-me dos mistérios e das descrições vívidas. E, apesar dos vários aspetos negativos ao longo dos livros, ao final desta viagem são os aspetos positivos que acabam por ter mais peso na minha apreciação geral da leitura desta coleção.
Classificação geral: 7/10



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